Sidartha (desenvolvendo insight de Darcilene)
A Copa da Rússia anda chamando atenção para seu caráter aparentemente atípico: tradicionais potências no esporte ficando para trás, seleções de menor prestígio destacando-se etc. A impressão que se tem é a de um maior nivelamento entre os times, que causaria disputas mais equilibradas e, consequentemente, diminuiria a probabilidade de os campeões históricos prevalecerem sempre nos embates.
Aqui, discutiremos um elemento específico do jogo, e como ele pode ser indicativo de situações macrossociais e econômicas diversas.
Um dos condicionantes primordiais para a maior probabilidade de sucesso de um time é a qualidade técnica de seus jogadores. Não entrando nos detalhes específicos do trabalho de formação de um jogador com elevado nível técnico, supõe-se que existam caminhos diversos para este trabalho, que é na verdade um processo, o processo de formação do jogador. Mas, seja qual for o caminho, todos devem ter em comum um fator chave: tempo. Sim, é preciso tempo, uma expressiva quantidade de tempo, para que um indivíduo adquira os fundamentos necessários para que ele seja um bom ou um ótimo jogador, e mesmo um craque (em que deve entrar, além do tempo, um quociente de inteligência corporal cinestésica acima do normal ou da média).
Mas quem tem tempo para se dedicar tanto ao domínio de um esporte como o futebol? Anos atrás, Thierry Henry disse que era difícil jogar contra os brasileiros, pois eles nascem jogando bola, enquanto as crianças francesas tinham que se ocupar com escola integral, feitura de tarefas etc. A criança brasileira pobre, normalmente negra ou parda, com acesso escasso a boas escolas, bibliotecas e acervos físicos e virtuais de informações, membro de famílias frequentemente desestruturadas, pode passar dias e semanas inteiras soltos nas ruas e terrenos baldios das periferias, batendo bola.
Henry tem razão, quando se sabe que grande parte dos jogadores brasileiros são oriundos de famílias pobres ou das classes populares (para maiores detalhes, ver: https://www.anpocs.com/index.php/papers-26-encontro/gt-23/gt06-7/4376-fxrodrigues-a-sociologia/file). A relação íntima entre pobreza e exercício da atividade futebolística confirma-se pelo fato de que pouco mais de 8 em 10 jogadores brasileiros ganham até 2 salários mínimos (https://extra.globo.com/esporte/triste-realidade-no-brasil-82-dos-jogadores-de-futebol-recebem-ate-dois-salarios-minimos-6168754.html), condição esta a que dificilmente aceitariam se submeter pessoas oriundas das classes média e alta.
Constata-se facilmente, então, que o status de superpotência futebolística do Brasil é também um tenebroso indicador da enorme pobreza e desigualdade socioeconômica do país. Sabendo-se, pois, do que é necessário para produzir tantos jogadores bons, esta condição de proeminência futebolística deveria envergonhar a nação.
Mas, não é somente disso que trata este texto, e sim do seguinte: até que ponto a ascensão de outros selecionados futebolísticos não seria também explicada pela deterioração socioeconômica em seus países de origem?
Na Eurocopa de 2016, constatou-se que 1 em cada 3 jogadores de seleções europeias poderiam representar outro país (https://www.dn.pt/desporto/euro-2016/interior/um-em-cada-tres-jogadores-podia-representar-outro-pais-5224669.html).
No Mundial da Rússia, os principais jogadores da seleção belga são filhos da imigração árabe e ou africana (https://www.terra.com.br/esportes/lance/classico-europeu-franca-x-belgica-e-destaque-por-filhos-de-imigrantes,06e7eccbd950a1b833bb735a1cfaefc5jzdpxz8s.html). Em três seleções europeias das quatro melhores do mundo, os filhos de imigrantes não-brancos ocupam grande parte dos selecionados (https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/o-que-esta-copa-do-mundo-diz-sobre-a-imigracao-3v65feuhkf46h0grknjhpv8dh). Da seleção francesa finalista da Copa, apenas 3 jogadores de todo o elenco teriam origem "gaulesa". Os demais são filhos de imigrantes. Um dos astros do time francês, Mbappé, teve uma infância bastante difícil. Ele e outros 7 dos 23 jogadores franceses vieram dos banlieues, os bairros periféricos pobres cheios de desempregados e outros marginalizados (https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/06/com-meninos-da-periferia-franca-tenta-sucesso-na-copa.shtml).
No Brasil, o futebol é um dos pouquíssimos funis pelos quais os meninos pobres podem sonhar com alguma ascensão social. Por isso mesmo, é um triste indicador da penúria social nacional, que gera uma seleção de futebol sempre competitiva. O que então as seleções belga, inglesa e francesa, igualmente competitivas, teriam a nos dizer dos tecidos socioeconômicos daqueles países?