21.12.17

Por uma visão razoável, da crise ao PT: crítica a Tsavkko Garcia

Talvez como desdobramento da interminável crise brasileira - entre formas e graus diversos, já estamos há bem uns quatro anos em crise -, talvez como parte dela, as reflexões em torno de cenários de crise alcançaram o plano da intelectualidade acadêmica e político-ideológica. Assim, para alguns, estaríamos vivendo (também) a crise da intelectualidade brasileira.


Na longuíssima entrevista, o jovem pesquisador fala sobre temas diversos e interessantes, como a crise intelectual, o papel das redes sociais, a radicalização de ódios e a falência do debate, o fenômeno do que chama de "justiceiros sociais" - militantes fincados num aparente monopólio do "lugar de fala", que acabam enveredando para posições sectárias - etc. Enfim, vale uma lida.

Contudo, me chamaram atenção, por parte do autor, algumas passagens, sobre determinados aspectos da crise política e da crise da esquerda ou do PT. Passo à crítica a seguir.

Primeiramente, logo no início, quando o autor é questionado sobre a situação política do Brasil. Garcia afirma que Junho de 2013 e a Lava-Jato "abalaram as estruturas do poder", e que "as elites que se revezam no controle do Estado" estariam tentando se reestruturar, enquanto ganhariam tempo apostando em uma polarização para distrair a população, ou algo do tipo.

Aí reside uma imprecisão, na forma de uma mistura de fenômenos, que, em princípio, nada teriam a ver um com o outro (embora isso viesse a mudar em pouco tempo, como se verá a seguir). Sim, porque as Jornadas de 2013 foram (em princípio) um movimento difuso e sem orientação definida, enquanto a Lava-Jato foi um movimento muito bem organizado, com direção e alvos cirurgicamente selecionados. No caso das Jornadas, pautas de esquerda e (a seguir, e, depois, principalmente) de direita se misturaram nas ruas, no modo mais autenticamente "movimentista" possível (ou seja, sem organização ou institucionalização de nenhum tipo). 

Já no caso da Operação Lava-Jato, o lawfare direcionado contra a governança petista sempre foi evidente. Aliás, ao que me parece, é exatamente por ignorar isso, bem como o movimento político-partidário anti-PT montado pela aliança entre setores do Judiciário e a mídia oligopólica, que Garcia insiste no argumento de que o golpe, sua justificativa e seus efeitos não passam de uma "narrativa" inventada pela "intelligentsia" petista a fim de agregar o apoio de incautos ao seu projeto de poder.

Aliás, atenção para isso: do fato de que o projeto de poder petista e o governo petista sejam passíveis de diversas críticas (eu mesmo tenho várias) não decorre que seja falsa a tese petista de que a Lava-Jato representou, em seu conjunto, um movimento de natureza político-partidária, cujo objetivo era, tanto quanto possível, destroncar o PT no poder etc. Hoje, já passados alguns anos de operação lava-jato, as evidências acerca de suas motivações político-partidárias se acumulam de tal modo que é impossível ignorá-las.

Adiante, ou melhor, voltando ainda ao ponto das Jornadas de 2013. Sim, é verdade que, naquele ano, já havia (impressão minha) um certo ar de cansaço, de desânimo entre setores "progressistas" em relação ao petismo (eu mesmo, me arrependo até hoje de não ter escrito o que me passou pela cabeça logo nos primeiros dias de janeiro de 2013 - mais ou menos que, a despeito de estarmos entrando no décimo ano de governo petista da nação, a continuidade do não enfrentamento, pelo governo, de problemas estruturais mais sérios, poderia culminar em insatisfação e revolta generalizados contra a esquerda, podendo inclusive colocar em risco os ganhos de até então. Me lembro de estar cansado de esperar por avanços mais significativos do petismo. Se tivesse escrito isso, teria ficado famoso. Como não escrevi, o máximo a que posso chegar é de ser chamado de mentiroso). Sim, as evidências disponíveis sugerem que as jornadas tenham começado como movimentos de baixa intensidade detonados por movimentos sociais tipicamente de esquerda (como o movimento pelo passe livre).

Mas, já não tenho a mesma convicção para concordar, conforme o autor, com o fato de que a repressão policial ao movimento "acabou por radicalizar à direita" setores menos politizados etc. Estaria Garcia querendo dizer que o movimento foi capturado pela direita por causa da repressão promovida pelo governo da esquerda?

Se for este o argumento, ele é frágil por razões diversas. Elenco uma: se, como Garcia também diz, o PT estava aliado a banqueiros, conservadores, empreiteiros e governantes tucanos, por que raios os manifestantes associariam tudo isso à "esquerda", pendendo assim para a direita? Logicamente, se o PT estava aliado ao restante da direita espalhada por elites econômicas e governos estaduais, então tudo isso deveria ser tomado como um pilar "conservador", empurrando as manifestações para a esquerda. Enfim, é fraca, para dizer o mínimo, a hipótese do autor.

Mais consistente parece ser afirmar que, já em junho de 2013, os diversos segmentos sociais e políticos conservadores ou de direita, alijados por tantos anos do poder federal, viram na ocasião uma chance de ouro para desgastar o poderio petista. A grande mídia oligopólica, autêntico partido conservador, em poucos dias mudou radicalmente o modo de cobrir "jornalisticamente" as manifestações - passando a apoiá-las entusiasticamente. De novo, a natureza conservadora e politicamente motivada da grande mídia oligopólica nada tem de fantasioso ou de mera "narrativa inventada" por quem quer que seja: é um dado objetivo da realidade.

Diversas pesquisas buscaram captar o perfil dos manifestantes, de 2013 aos anos seguintes, até a derrubada de Dilma. Ao que parece, infelizmente apenas uma delas buscou levantar dados sobre quem estava nas ruas em junho de 2013, uma pesquisa feita às pressas pelo Ibope (vide aqui: http://g1.globo.com/brasil/noticia/2013/06/veja-integra-da-pesquisa-do-ibope-sobre-os-manifestantes.html). 

O perfil das jornadas apontava para grande participação de jovens, embora os segmentos de não-jovens, somados, sobrepujassem os primeiros; relativo equilíbrio entre pessoas com e sem ensino superior; relativo equilíbrio entre faixas de renda, sem evidente predomínio de uma. Em relação à pauta, apareciam ali bandeiras do movimento original (transporte público, críticas à Copa, demandas por saúde etc), já misturadas a bandeiras mais tipicamente conservadoras (corrupção etc.). Sim, coloco a bandeira anti-corrupção na pauta conservadora porque é mais típico de pontos de vista conservadores a busca por "reduzir" a complexidade de certos problemas ou questões sociais e políticas a "casos de polícia", à criminalização, e daí à repressão, punição etc.

Já nos anos seguintes, a direita hegemoniza largamente as massas presentes nas ruas (vide aqui uma relação de pesquisas feitas sobre o perfil em várias manifestações: https://gpopai.usp.br/pesquisa/?rel=mas).

Em todo caso, já em junho de 2013 a direita tomava posições nas ruas e ia hostilizando a participação de tudo que lhe cheirasse à "esquerda", como os movimentos sociais tipicamente populares etc. Se a frágil hipótese do autor para explicar isso deve ser descartada, sobra afirmar que, diferentemente do que ele crê, Junho de 2013 marcou, sim, o recrudescimento do conservadorismo no Brasil. As jornadas não começaram assim, mas em seguida assim se colocaram, e assim terminaram.

Adiante. Sobre a passagem em que Garcia diz que, "a intelectualidade seguiu a maré e se mantém fiel ao PT e às suas narrativas", restaria a ele citar os nomes de quem fez/faz isso. A classe média pode, sim, ter sido demonizada por alguma intelectual mais exaltada. Mas, de novo não é nenhuma narrativa fantasiosa que informa que o grosso das manifestações e dos manifestantes eram oriundos da classe média. Leitores de periódicos da mídia oligopólica (conforme as pesquisas revelam), com pontos de vista em geral conservadores (embora nem sempre em sintonia com as lideranças das manifestações), as ruas em 2014 e 2015 foram tomadas por classes médias que exigiam a cabeça de Dilma e a demonização do PT e das esquerdas em geral. Não é "narrativa", são dados coletados estatisticamente, dando ciência a um perfil específico dos manifestantes.

A classe média não é um monolito? Sim, claro que não é. Demonizá-la, portanto, não é razoável. Mas, igualmente, não é razoável assumir que tudo que existe não passa de narrativa feita sob medida.

Adiante. Na parte em que Garcia afirma que "parte considerável da intelectualidade penhorou o rigor acadêmico para defender um partido francamente corrupto", mais problemas. Melhor do que alguma narrativa petista será a narrativa de Deltan Dallagnol (Lula, "chefão do esquema todo")? Ou da Revista Veja (PT, "partido corrupto")?

A propósito, o que afinal significa dizer que uma organização ou instituição - impessoal por definição - é "corrupta" - um adjetivo, por definição, um atributo pessoal?

Uma organização pode até ser criminosa, desde que opere necessariamente em campos e atividades considerados imorais ou ilegais (a Máfia, por exemplo). Mas um partido político?

Por definição, um partido político não é uma organização criminosa ou corrupta ou criminoso, já que ele tem existência jurídica garantida pelo ordenamento legal, em consonância com este e respeitando-o formalmente.

Desde modo, o PT não pode ser "francamente corrupto" meramente por ser um partido político. Sendo assim, para tanto, o PT deveria ser, o que, composto majoritariamente por indivíduos corruptos?

Ainda que tal critério (o número de corruptos membros da agremiação partidária) fosse suficiente (na verdade não é) para se caracterizar um partido como "corrupto", que dados Garcia teria para afirmar que a maioria dos filiados ao PT seria composta por corruptos, ou que suas direções são comandadas por corruptos, que corromperiam assim todo o partido?

Enfim, aqui o argumento do autor parece mais eivado de sentimentalismo ou de emocionalismo do que propriamente de ser fundamentado em dados empíricos e argumentações racionais. Espera-se isso, naturalmente, de coisas como semanários da mídia oligopólica, mas não de um ponto de vista científico, acadêmico.

Ficarei por aqui, já que, a seguir, o autor começará uma longa digressão sobre os "justiceiros sociais", com o que em geral não tenho desacordo.

11.12.17

Ciência & Ideologia

Em tal período, o momento ideológico dentro da ciência tende a aparecer menos por conter  juízos falsos do que por sua falta de clareza, sua perplexidade, sua linguagem dissimuladora, seus problemas, seus métodos, pela direção de suas investigações e, sobretudo, por aquilo para o que ela fecha os olhos.
Max Horkheimer
[In einer solchen Periode pflegt das ideologische Moment innerhalb der Wissenschaft weniger darin zu erscheinen, daß sie falsche Urteile enthält, als in ihrer mangelnden Klarheit, ihrer Ratlosigkeit, ihrer verhüllenden Sprache, ihren Problemstellungen, ihren Methoden, der Richtung ihrer Untersuchungen und vor allem in dem, wovor sie die Augen verschließt.]

10.12.17

Agires

O agir comunicativo pressupõe a possibilidade de um entendimento; o agir estratégico, a sua impossibilidade.
Jürgen Habermas
[Kommunikatives Handeln setzt die Möglichkeit einer Verständigung voraus, strategisches Handeln deren Unmöglichkeit.]

9.12.17

Verdade e Imagem

A teologia negativa é tão necessária à teologia afirmativa, que sem ela Deus não seria cultuado como Deus infinito, mas antes como criatura. E tal culto é idolatria, pois atribui à imagem aquilo que só convém à verdade.
Nicolau de Cusa, A douta ignorância