Avançando já no ano eleitoral de 2018, tentemos fazer um balanço do cenário que se avizinha. Naturalmente, tal esforço se baseia no presente, considerando que muita coisa poderá e deverá mudar ao longo do ano.
Começando pelos dois primeiros colocados nas pesquisas de opinião, Lula e Bolsonaro. Lula vem revelando uma tenacidade desconcertante, tanto para inimigos quanto para amigos e aliados. Até seis ou sete meses atrás, sem falar nos últimos dois anos, poucos esperavam seriamente que Lula chegasse em 2018 com força. Ainda que o PT se arraste como sobrevivente de um massacre, Lula sozinho parece ter um vigor bem maior. Contra Lula, temos parcela importante do poder judiciário e seu lawfare. É possível que a gana com que o Judiciário se atirou na caça a Lula possa ter gerado um efeito contrário ao objetivo de destruí-lo politicamente, ao provocarem o recrudescimento da resistência pró-Lula, que conta, a seu favor, com diversas realizações feitas em seu governo que beneficiaram os estratos sociais mais baixos. Maquiavel dizia que, se é para o Príncipe escolher uma base sobre a qual fundamentar seu poder, que ficasse com o povo e não com as elites, porque, enquanto os Grandes invejam o Príncipe e constantemente pensam em solapá-lo, tudo que o Povo deseja é alívio para suas mazelas.
Não obstante, se o Judiciário começou a perder a batalha no front político e da opinião pública (o que demonstram as pesquisas de opinião, em que Lula segue aumentando o seu eleitorado e diminuindo a rejeição a seu nome), ainda conta com o poder discricionário de simplesmente prendê-lo ou retirar-lhe os direitos políticos. Mas isso também tem seu custo, cujo cálculo deve estar fazendo várias lideranças e formadores de opinião na direita perderem o sono: se Lula for arrancado "no tapetão" da disputa, ele não poderá ficar ainda maior e mais ameaçador, desafiando seriamente a legitimidade de quem vencer a eleição? A julgar pelo termômetro futebolístico, brasileiros não parecem apreciar em nada o tapetão, e não esquecem quem foi beneficiado ou prejudicado por ele.
Finalmente, a pré-candidatura Lula tem um problema, que decorre dos supracitados. Como o PT e Lula estão em luta para viabilizar legalmente a candidatura e isso certamente consome uma energia gigantesca, não houve ainda momento para discutir e lançar um programa de governo. Isso pode gerar desconfiança em certas parcelas da esquerda, para quem isso é importante e que, na sua ausência, pode levá-las a pensar que estão sendo convidadas a dar um "cheque em branco" para Lula.
Agora, Bolsonaro. Julgando pelas pesquisas e por suas últimas falas em público, ele já está ensaiado para atuar como a autêntica novidade na política, como um político limpo e franco - ou seja, um político "antipolítico" no imaginário popular. Tem uma base aguerrida entrincheirada nas redes sociais, entre os mais jovens e mais ricos. Explora os ressentimentos diversos e difusos deste segmento. É uma base que faz muito barulho, o que traz um pró e um contra. O pró é o volume de campanha que podem conseguir com seu ativismo apaixonado. O contra é que tal barulho e tal volume podem impedir uma percepção exata do real tamanho do eleitorado que está com ele (dificultando muito o trabalho de seus estrategistas de campanha) ou que poderá a vir estar com ele. Sim, a sociedade brasileira tem um significativo perfil conservador - mas, ao mesmo tempo, observador, desconfiado, pragmático.
Assim, será preciso mais do que gritaria passional para convencer maiorias eleitorais, e aí reside o ponto mais fraco do candidato: a escassa possibilidade de conseguir produzir um programa razoável, que não desmotive a minoria furiosa que o apóia no momento e consiga trazer outras parcelas da sociedade para o seu lado. Além de tal debilidade estrutural - o candidato é monotônico em suas falas e posicionamentos, favoráveis à homofobia, a regimes ditatoriais, à tortura, à brutalização de suspeitos e infratores (como se os órgãos públicos de segurança, com todos os seus problemas, já não fossem brutais o suficiente com suspeitos oriundos das classes populares...) -, há um problema sério em conseguir fazer um possível programa chegar aos ouvidos das massas, pois que, por ora, o candidato não tem praticamente nenhum apoio político-partidário, na forma de partidos grandes, governadores, prefeitos, legisladores etc. Por fim, a grande mídia oligopólica não parece ainda muito estimulada a embarcar em sua campanha, pois que o candidato parece ainda espalhafatoso ou extravagante demais para os seus padrões.
Se tudo continuar como está, Bolsonaro corre o sério risco de derreter, vendo seu apoio reduzido ao tamanho que ele sempre teve e que garantiu sua existência - como deputado federal.
Manuela D'ávila é a candidata do PCdoB, lançando sua pré-candidatura em um momento em que o PT se vê em crise institucional. Projeta uma imagem "jovem", como que de uma renovação política no campo das esquerdas. Pode ser importante na campanha eleitoral, se conseguir efetivar a pretensão de tirar as esquerdas dos impasses em que se encontram e colocar as forças políticas nos trilhos do debate em torno de programas de governo - o fraco da candidatura lulista-petista até agora -, diluindo um pouco o risco de a campanha eleitoral descambar para a pancadaria pura e simples, com brigas de torcidas intoxicando ainda mais o ambiente político nacional.
Além disso, a candidatura Manuela pode ter um outro contributo importante para o campo das esquerdas, incluindo-se aí o petismo, combalido mas ainda hegemônico no campo. Manuela, tanto por seu perfil quanto pelo perfil social básico do PCdoB - juventudes escolares e universitárias -, irá levar a disputa política para as redes sociais, em que Bolsonaro tem seus pontos de apoio mais visíveis e ativos. Com Manuela, uma candidatura de centro-esquerda poderá ter um fôlego a mais na disputa nas redes sociais e respectivos segmentos na sociedade que são seus maiores usuários. Num segundo turno, isso poderá fazer diferença a favor da candidatura petista - que, não tenho muitas dúvidas, ainda é uma das favoritas a uma das duas vagas na final.
Geraldo Alckmin. O candidato tucano, fiel ao seu estilo ultra-discreto, chegou a tal posição beneficiado, em boa medida, pelos atropelos e imaturidades de seu afilhado, o prefeito paulistano, além do apoio firme do tucanato mais forte do país, o paulista (ou de sua parcela ora predominante). Sim, ainda haverá, no PSDB, rusgas a serem resolvidas para que se confirme o seu nome - o prefeito de Manaus promete dar combate, o corpo mineiro dos tucanos continua ativo e influente, malgrado vagar por aí sem cabeça, decepada no fogo cruzado do lawfare etc.
Um problema sério da candidatura Alckmin ou tucana é a fatura do "golpe legal", jurídico-parlamentar-midiático, que defenestrou Dilma do Planalto. Os tucanos bancaram o golpe, foram carregados por novos movimentos moralistas reacionários (MBL etc) na "renovação da política", representada pela narrativa do banimento do banditismo lulo-petista e do governo "saneador da República" de Temer. Quando se confirmou, por um lado, que o ativismo judiciário não estancou nos petistas, ficando evidente que a administração Temer era ainda mais recheada de banditismo, de altas e suspeitas figuras, e, por outro, que a crise econômica era mais séria do que a simples (e grave) elevação do desemprego (pois agora os empregos começam a voltar timidamente, mas com péssima qualidade, informais, precários; a desigualdade voltou a crescer; etc), os tucanos se viram com um baita abacaxi no colo para descascar. Bancaram o golpe, foram para dentro do novo e ilegítimo governo e, conforme Temer se mostrasse um desastre completo, ficaram entre assumir o ônus do golpe ou a pecha de oportunistas descarados. Seguiu-se aí uma disputa intestina, da qual dificilmente a futura candidatura tucana sairá incólume.
Um problema sério da candidatura Alckmin ou tucana é a fatura do "golpe legal", jurídico-parlamentar-midiático, que defenestrou Dilma do Planalto. Os tucanos bancaram o golpe, foram carregados por novos movimentos moralistas reacionários (MBL etc) na "renovação da política", representada pela narrativa do banimento do banditismo lulo-petista e do governo "saneador da República" de Temer. Quando se confirmou, por um lado, que o ativismo judiciário não estancou nos petistas, ficando evidente que a administração Temer era ainda mais recheada de banditismo, de altas e suspeitas figuras, e, por outro, que a crise econômica era mais séria do que a simples (e grave) elevação do desemprego (pois agora os empregos começam a voltar timidamente, mas com péssima qualidade, informais, precários; a desigualdade voltou a crescer; etc), os tucanos se viram com um baita abacaxi no colo para descascar. Bancaram o golpe, foram para dentro do novo e ilegítimo governo e, conforme Temer se mostrasse um desastre completo, ficaram entre assumir o ônus do golpe ou a pecha de oportunistas descarados. Seguiu-se aí uma disputa intestina, da qual dificilmente a futura candidatura tucana sairá incólume.
Ciro Gomes. Ciro tem um discurso afinado e uma base intelectual segura para brandir um programa popular, trabalhista, nacionalista e desenvolvimentista. A seu favor, conta com o fato de não ter sido (assim como Bolsonaro) chamuscado pela guerra feita pelos justiceiros judiciários nos últimos anos. Também a favor dele conta sua lucidez diante das principais questões nacionais e perspectivas político-ideológicas em disputa, o que poderá elevar também significativamente o nível do debate político-eleitoral. Contra ele, pesa o fato (assim como Bolsonaro) de não ter bases sociais consolidadas (diferentemente de Lula/PT e do PSDB, com ou sem cabeça) e extensos apoios político-partidários. Continua como um outsider de centro-esquerda, cuja força eleitoral varia na razão inversamente proporcional ao do vigor lulista-petista.
Outro problema de Ciro reside, curiosa ou até paradoxalmente, em seu programa. A menos que ele se dê conta disso e busque uma solução, seu programa nacional-desenvolvimentista e popular corre o risco de ser considerado como muito datado no tempo, ultrapassado etc. Ciro deveria arejá-lo com incursões a questões contemporâneas diversas, como os temas do meio ambiente, as questões racial, de gênero e diversidade sexual, novas formas de governança política e relacionamento Estado-sociedade etc. Do contrário, pode ser pego no contrapé - por exemplo, uma ênfase sem maiores cautelas na tecla desenvolvimentista clássica poderá colocá-lo em rota de colisão com ambientalismos diversos, bem como com pautas como a dos indígenas, quilombolas, das comunidades ribeirinhas, das energias renováveis e limpas etc.
Poderia haver uma aliança Ciro x PT? Talvez não possa, mas talvez fosse desejável. O programa e o projeto de poder petista precisam de uma coluna dorsal forte - o compromisso estratégico com o desenvolvimento e a soberania, atrelados às demandas e ao protagonismo populares. Ciro forneceria os primeiros, enquanto o petismo ainda, ainda, tem confluindo para si os segundos. É duvidoso que Ciro meramente apoie a chapa petista como nas outras eleições vitoriosas do petismo (ou seja, sem fazer parte dela, ou sem um acordo firme em relação à sucessão etc). Por outro lado, a mentalidade hegemônica atrapalha o petismo - por reinarem ainda soberanos no campo das esquerdas, não raro parecem surdos à necessidade de uma auto-crítica efetiva, de fazerem um balanço entre seus erros e acertos etc. Sobretudo, não cogitam dividir a possibilidade de conquistarem o poder dividindo-o com outro que não seja um petista. Seu orgulho e sua teimosia podem derrotá-los.
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