14.7.18

Maior igualdade na Copa, maior desigualdade social?

Sidartha (desenvolvendo insight de Darcilene)

A Copa da Rússia anda chamando atenção para seu caráter aparentemente atípico: tradicionais potências no esporte ficando para trás, seleções de menor prestígio destacando-se etc. A impressão que se tem é a de um maior nivelamento entre os times, que causaria disputas mais equilibradas e, consequentemente, diminuiria a probabilidade de os campeões históricos prevalecerem sempre nos embates.

Aqui, discutiremos um elemento específico do jogo, e como ele pode ser indicativo de situações macrossociais e econômicas diversas.

Um dos condicionantes primordiais para a maior probabilidade de sucesso de um time é a qualidade técnica de seus jogadores. Não entrando nos detalhes específicos do trabalho de formação de um jogador com elevado nível técnico, supõe-se que existam caminhos diversos para este trabalho, que é na verdade um processo, o processo de formação do jogador. Mas, seja qual for o caminho, todos devem ter em comum um fator chave: tempo. Sim, é preciso tempo, uma expressiva quantidade de tempo, para que um indivíduo adquira os fundamentos necessários para que ele seja um bom ou um ótimo jogador, e mesmo um craque (em que deve entrar, além do tempo, um quociente de inteligência corporal cinestésica acima do normal ou da média).

Mas quem tem tempo para se dedicar tanto ao domínio de um esporte como o futebol? Anos atrás, Thierry Henry disse que era difícil jogar contra os brasileiros, pois eles nascem jogando bola, enquanto as crianças francesas tinham que se ocupar com escola integral, feitura de tarefas etc. A criança brasileira pobre, normalmente negra ou parda, com acesso escasso a boas escolas, bibliotecas e acervos físicos e virtuais de informações, membro de famílias frequentemente desestruturadas, pode passar dias e semanas inteiras soltos nas ruas e terrenos baldios das periferias, batendo bola.

Henry tem razão, quando se sabe que grande parte dos jogadores brasileiros são oriundos de famílias pobres ou das classes populares (para maiores detalhes, ver: https://www.anpocs.com/index.php/papers-26-encontro/gt-23/gt06-7/4376-fxrodrigues-a-sociologia/file). A relação íntima entre pobreza e exercício da atividade futebolística confirma-se pelo fato de que pouco mais de 8 em 10 jogadores brasileiros ganham até 2 salários mínimos (https://extra.globo.com/esporte/triste-realidade-no-brasil-82-dos-jogadores-de-futebol-recebem-ate-dois-salarios-minimos-6168754.html), condição esta a que dificilmente aceitariam se submeter pessoas oriundas das classes média e alta.

Constata-se facilmente, então, que o status de superpotência futebolística do Brasil é também um tenebroso indicador da enorme pobreza e desigualdade socioeconômica do país. Sabendo-se, pois, do que é necessário para produzir tantos jogadores bons, esta condição de proeminência futebolística deveria envergonhar a nação.

Mas, não é somente disso que trata este texto, e sim do seguinte: até que ponto a ascensão de outros selecionados futebolísticos não seria também explicada pela deterioração socioeconômica em seus países de origem?

Na Eurocopa de 2016, constatou-se que 1 em cada 3 jogadores de seleções europeias poderiam representar outro país (https://www.dn.pt/desporto/euro-2016/interior/um-em-cada-tres-jogadores-podia-representar-outro-pais-5224669.html). 

No Mundial da Rússia, os principais jogadores da seleção belga são filhos da imigração árabe e ou africana (https://www.terra.com.br/esportes/lance/classico-europeu-franca-x-belgica-e-destaque-por-filhos-de-imigrantes,06e7eccbd950a1b833bb735a1cfaefc5jzdpxz8s.html). Em três seleções europeias das quatro melhores do mundo, os filhos de imigrantes não-brancos ocupam grande parte dos selecionados (https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/o-que-esta-copa-do-mundo-diz-sobre-a-imigracao-3v65feuhkf46h0grknjhpv8dh). Da seleção francesa finalista da Copa, apenas 3 jogadores de todo o elenco teriam origem "gaulesa". Os demais são filhos de imigrantes. Um dos astros do time francês, Mbappé, teve uma infância bastante difícil. Ele e outros 7 dos 23 jogadores franceses vieram dos banlieues, os bairros periféricos pobres cheios de desempregados e outros marginalizados (https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/06/com-meninos-da-periferia-franca-tenta-sucesso-na-copa.shtml).

No Brasil, o futebol é um dos pouquíssimos funis pelos quais os meninos pobres podem sonhar com alguma ascensão social. Por isso mesmo, é um triste indicador da penúria social nacional, que gera uma seleção de futebol sempre competitiva. O que então as seleções belga, inglesa e francesa, igualmente competitivas, teriam a nos dizer dos tecidos socioeconômicos daqueles países?

6.2.18

O maior erro do PT: o canto de sereia do camarote

Muito se fala, diante da condenação de Lula, sobre as condutas, os pesos e medidas do Judiciário brasileiro. Haverá muitos que considerarão justa a punição ao ex-presidente, bem como as outras que deverão vir. E haverá outros tantos para os quais, ou a condenação é injusta, ou Lula e outros petistas presos e/ou condenados estão sendo julgados com um rigor jamais visto diante de outros políticos poderosos.

Portanto, não falarei disso; a gritaria atual de lado a lado deve ser suficiente, senão para aclarar os fatos em questão, pelo menos para ilustrar os diversos pontos de vista. Meu ponto, que também não será tão original assim, é outro: usarei tais episódios para discutir o que penso ser talvez o pior, o mais lamentável e trágico erro cometido pelo PT em sua saga brasileira. Ou, para ser mais preciso, o erro da cúpula dirigente e suas hostes apoiadoras, da intelligentzia petista.

Então indo direto ao ponto: o erro mais abominável da realpolitik petista foi o de terem acreditado sinceramente que, por terem vencido a mais importante das eleições e terem por tanto tempo governado o país, que entraram para o clube fechado das elites nacionais. Que, ao emularem atos ou comportamentos típicos de membros das elites nacionais, poderiam ser julgados também de acordo com os padrões condescendentes - tolerantes, flexíveis, indulgentes, complacentes - com que as elites julgam a si mesmas.

Em outras palavras: historicamente, a cultura política nacional foi a da aplicação da lei aos inimigos (aos amigos, tudo!), o que implica um uso ou interpretação flexível da lei. Para os padrões do moderno Estado de direito, a cultura da aplicação variável da lei significa, de fato, que nenhuma lei vale de fato. Por este aspecto, pois, o Brasil ainda não alcançou a modernidade.

Histórica e culturalmente, já diziam alguns cientistas sociais, nós brasileiros nos acostumamos a apreciar, a valorizar, a conferir prestígio à desigualdade (os Jessés que me perdoem, mas seguirei um pouco mais com esta caravana). À secular e atroz desigualdade socioeconômica brasileira seguiu-se o seu reflexo justificador no campo das referências e valores: em geral, os brasileiros conferimos (aberta ou tacitamente) positividade a nos desigualar, e não a nos igualar. Somos, como alguém já disse, a sociedade do camarote: grande parte quer lugar num camarote. Uma diferença entre as classes nacionais (ou seriam estamentos?) é a que confere soberba e arrogância a um lado, e inveja ao outro.

Tal interpretação creio ser facilmente ilustrável ou demonstrável. Tomemos, por exemplo, a relação entre as questões da renda e da saúde pública. Nos anos de governos petistas, milhões de brasileiros dos estratos sociais mais baixos viram seus rendimentos subirem significativamente, houve quem falasse até na (bobagem da) "nova classe média" etc.

Mas, ao mesmo tempo que os estratos sociais inferiores ascendiam em termos de sua renda, o que acontecia com o sistema público de saúde? Continuou, salvo engano, em estado geral lastimável. O que fizeram os supostos recém-chegados à classe média? Entraram em massa no camarote dos planos de saúde privados (longe de mim, a propósito, julgá-los por tal escolha: agimos em um dado campo de possibilidades e oportunidades, buscando geralmente maximizar ganhos e prazeres etc).

A lógica social do camarote é a mesma lógica da reprodução da desigualdade: não se caminha nunca para uma diminuição ou abolição da desigualdade, e sim para sua recomposição. Porque, sempre que houver um plano de saúde (que, convenhamos, nem é lá grande coisa), haverá quem não pode ter um. Todo camarote é por definição espaço de privilegiados, fora do qual vivem os marginalizados.

A lógica do camarote explica também a desigualdade de acesso e tratamento pelo sistema judicial. O camarote jurídico é aquele em que seus ocupantes desfrutam de privilégios como a flexibilidade e indulgência com que seus atos são julgados. Onde não há igualdade não pode haver império da lei, porque este pressupõe necessariamente uma situação de igualdade formal entre indivíduos-cidadãos.  

Pois bem. E os petistas? Os petistas são originários dos espaços transgressores, dos pensamentos críticos ao status quo, dos estratos sociais mais baixos, das classes assalariadas, dos grupos sociais de identidades subalternizadas etc. Em suma, os petistas são originalmente os representantes políticos das ralés sociais de um Brasil cuja estrutura societal básica lembra ainda em muito as descrições machadianas da sociedade imperial do século XIX.

Aí, em sua justa saga pela busca do poder - o poder para diminuir desigualdades, para gerar justiça, enfim, para realizar algumas bandeiras típicas das esquerdas -, os petistas concluíram que, para serem palatáveis ao mundo dos bacharéis e semi-escravos oitocentistas, deviam formalmente se aburguesar. Começaram aparando as barbas e vestindo ternos de corte com caimento melhor. Moderaram seus discursos. Depois de muito pelejarem e de perderem, finalmente vencem a maior eleição do país. Fazem um governo razoável.

Os petistas, que antes ficavam segurando faixas debaixo do sol e se aglutinando em torno de carros de som nas ruas, passaram a operar dentro dos prédios e gabinetes climatizados, com suas mordomias, salamaleques e puxa-sacos. Conforme o tempo passava, se familiarizaram com o ambiente dos corredores do poder no executivo e no legislativo. Acreditaram que haviam entrado no camarote dos amigos e inimigos cordiais.

Não entraram e nunca entrarão. Na primeira oportunidade real que tiveram, os bacharéis  passaram Lula na guilhotina de sua justiça aristocrática e imperial. Agora, terminarão o serviço, esquartejando o corpo e exibindo os pedaços em praças públicas nos quatro cantos do país, como aviso a todos os iletrados e atrevidos que se esquecem de onde vieram: ralé, seu lugar não é no camarote e jamais será.

Se espero que o PT aprenda com seu maior erro? Que o caminho para a real superação da desigualdade brasileira é muito mais longo, pois requer a revisão de padrões valorativos e culturais, bem como a prática sistemática de novos valores? Que, antes de elegerem um chefe de Executivo para ficar cercado e refém dos bacharéis imperiais, devem demorar muito mais tempo, para elegerem amplos contingentes de legisladores? Que não devem jamais sucumbir ao canto de sereia da lógica do camarote, ainda que à guisa de combatê-la (porque isso não vai dar certo de jeito nenhum - sereias seduzem, levam pro fundo do mar e devoram suas ingênuas ou presunçosas presas)? Que a superação da desigualdade requer muito, mas muito mais do que meramente (a despeito de sua necessidade) ampliar a renda para consumo das pessoas mais pobres? Que requer esforços para a ampliação do universo intelectual, moral e valorativo das pessoas?

Espero. Sentado.

17.1.18

O cenário político-eleitoral do momento e suas opções: nossos palpites

Avançando já no ano eleitoral de 2018, tentemos fazer um balanço do cenário que se avizinha. Naturalmente, tal esforço se baseia no presente, considerando que muita coisa poderá e deverá mudar ao longo do ano.

Começando pelos dois primeiros colocados nas pesquisas de opinião, Lula e Bolsonaro. Lula vem revelando uma tenacidade desconcertante, tanto para inimigos quanto para amigos e aliados. Até seis ou sete meses atrás, sem falar nos últimos dois anos, poucos esperavam seriamente que Lula chegasse em 2018 com força. Ainda que o PT se arraste como sobrevivente de um massacre, Lula sozinho parece ter um vigor bem maior. Contra Lula, temos parcela importante do poder judiciário e seu lawfare. É possível que a gana com que o Judiciário se atirou na caça a Lula possa ter gerado um efeito contrário ao objetivo de destruí-lo politicamente, ao provocarem o recrudescimento da resistência pró-Lula, que conta, a seu favor, com diversas realizações feitas em seu governo que beneficiaram os estratos sociais mais baixos. Maquiavel dizia que, se é para o Príncipe escolher uma base sobre a qual fundamentar seu poder, que ficasse com o povo e não com as elites, porque, enquanto os Grandes invejam o Príncipe e constantemente pensam em solapá-lo, tudo que o Povo deseja é alívio para suas mazelas.

Não obstante, se o Judiciário começou a perder a batalha no front político e da opinião pública (o que demonstram as pesquisas de opinião, em que Lula segue aumentando o seu eleitorado e diminuindo a rejeição a seu nome), ainda conta com o poder discricionário de simplesmente prendê-lo ou retirar-lhe os direitos políticos. Mas isso também tem seu custo, cujo cálculo deve estar fazendo várias lideranças e formadores de opinião na direita perderem o sono: se Lula for arrancado "no tapetão" da disputa, ele não poderá ficar ainda maior e mais ameaçador, desafiando seriamente a legitimidade de quem vencer a eleição? A julgar pelo termômetro futebolístico, brasileiros não parecem apreciar em nada o tapetão, e não esquecem quem foi beneficiado ou prejudicado por ele.

Finalmente, a pré-candidatura Lula tem um problema, que decorre dos supracitados. Como o PT e Lula estão em luta para viabilizar legalmente a candidatura e isso certamente consome uma energia gigantesca, não houve ainda momento para discutir e lançar um programa de governo. Isso pode gerar desconfiança em certas parcelas da esquerda, para quem isso é importante e que, na sua ausência, pode levá-las a pensar que estão sendo convidadas a dar um "cheque em branco" para Lula.

Agora, Bolsonaro. Julgando pelas pesquisas e por suas últimas falas em público, ele já está ensaiado para atuar como a autêntica novidade na política, como um político limpo e franco - ou seja, um político "antipolítico" no imaginário popular. Tem uma base aguerrida entrincheirada nas redes sociais, entre os mais jovens e mais ricos. Explora os ressentimentos diversos e difusos deste segmento. É uma base que faz muito barulho, o que traz um pró e um contra. O pró é o volume de campanha que podem conseguir com seu ativismo apaixonado. O contra é que tal barulho e tal volume podem impedir uma percepção exata do real tamanho do eleitorado que está com ele (dificultando muito o trabalho de seus estrategistas de campanha) ou que poderá a vir estar com ele. Sim, a sociedade brasileira tem um significativo perfil conservador - mas, ao mesmo tempo, observador, desconfiado, pragmático. 

Assim, será preciso mais do que gritaria passional para convencer maiorias eleitorais, e aí reside o ponto mais fraco do candidato: a escassa possibilidade de conseguir produzir um programa razoável, que não desmotive a minoria furiosa que o apóia no momento e consiga trazer outras parcelas da sociedade para o seu lado. Além de tal debilidade estrutural - o candidato é monotônico em suas falas e posicionamentos, favoráveis à homofobia, a regimes ditatoriais, à tortura, à brutalização de suspeitos e infratores (como se os órgãos públicos de segurança, com todos os seus problemas, já não fossem brutais o suficiente com suspeitos oriundos das classes populares...) -, há um problema sério em conseguir fazer um possível programa chegar aos ouvidos das massas, pois que, por ora, o candidato não tem praticamente nenhum apoio político-partidário, na forma de partidos grandes, governadores, prefeitos, legisladores etc. Por fim, a grande mídia oligopólica não parece ainda muito estimulada a embarcar em sua campanha, pois que o candidato parece ainda espalhafatoso ou extravagante demais para os seus padrões.

Se tudo continuar como está, Bolsonaro corre o sério risco de derreter, vendo seu apoio reduzido ao tamanho que ele sempre teve e que garantiu sua existência - como deputado federal.

Manuela D'ávila é a candidata do PCdoB, lançando sua pré-candidatura em um momento em que o PT se vê em crise institucional. Projeta uma imagem "jovem", como que de uma renovação política no campo das esquerdas. Pode ser importante na campanha eleitoral, se conseguir efetivar a pretensão de tirar as esquerdas dos impasses em que se encontram e colocar as forças políticas nos trilhos do debate em torno de programas de governo - o fraco da candidatura lulista-petista até agora -, diluindo um pouco o risco de a campanha eleitoral descambar para a pancadaria pura e simples, com brigas de torcidas intoxicando ainda mais o ambiente político nacional.

Além disso, a candidatura Manuela pode ter um outro contributo importante para o campo das esquerdas, incluindo-se aí o petismo, combalido mas ainda hegemônico no campo. Manuela, tanto por seu perfil quanto pelo perfil social básico do PCdoB - juventudes escolares e universitárias -, irá levar a disputa política para as redes sociais, em que Bolsonaro tem seus pontos de apoio mais visíveis e ativos. Com Manuela, uma candidatura de centro-esquerda poderá ter um fôlego a mais na disputa nas redes sociais e respectivos segmentos na sociedade que são seus maiores usuários. Num segundo turno, isso poderá fazer diferença a favor da candidatura petista - que, não tenho muitas dúvidas, ainda é uma das favoritas a uma das duas vagas na final.

Geraldo Alckmin. O candidato tucano, fiel ao seu estilo ultra-discreto, chegou a tal posição beneficiado, em boa medida, pelos atropelos e imaturidades de seu afilhado, o prefeito paulistano, além do apoio firme do tucanato mais forte do país, o paulista (ou de sua parcela ora predominante). Sim, ainda haverá, no PSDB, rusgas a serem resolvidas para que se confirme o seu nome - o prefeito de Manaus promete dar combate, o corpo mineiro dos tucanos continua ativo e influente, malgrado vagar por aí sem cabeça, decepada no fogo cruzado do lawfare etc. 

Um problema sério da candidatura Alckmin ou tucana é a fatura do "golpe legal", jurídico-parlamentar-midiático, que defenestrou Dilma do Planalto. Os tucanos bancaram o golpe, foram carregados por novos movimentos moralistas reacionários (MBL etc) na "renovação da política", representada pela narrativa do banimento do banditismo lulo-petista e do governo "saneador da República" de Temer. Quando se confirmou, por um lado, que o ativismo judiciário não estancou nos petistas, ficando evidente que a administração Temer era ainda mais recheada de banditismo, de altas e suspeitas figuras, e, por outro, que a crise econômica era mais séria do que a simples (e grave) elevação do desemprego (pois agora os empregos começam a voltar timidamente, mas com péssima qualidade, informais, precários; a desigualdade voltou a crescer; etc), os tucanos se viram com um baita abacaxi no colo para descascar. Bancaram o golpe, foram para dentro do novo e ilegítimo governo e, conforme Temer se mostrasse um desastre completo, ficaram entre assumir o ônus do golpe ou a pecha de oportunistas descarados. Seguiu-se aí uma disputa intestina, da qual dificilmente a futura candidatura tucana sairá incólume.

Ciro Gomes. Ciro tem um discurso afinado e uma base intelectual segura para brandir um programa popular, trabalhista, nacionalista e desenvolvimentista. A seu favor, conta com o fato de não ter sido (assim como Bolsonaro) chamuscado pela guerra feita pelos justiceiros judiciários nos últimos anos. Também a favor dele conta sua lucidez diante das principais questões nacionais e perspectivas político-ideológicas em disputa, o que poderá elevar também significativamente o nível do debate político-eleitoral. Contra ele, pesa o fato (assim como Bolsonaro) de não ter bases sociais consolidadas (diferentemente de Lula/PT e do PSDB, com ou sem cabeça) e extensos apoios político-partidários. Continua como um outsider de centro-esquerda, cuja força eleitoral varia na razão inversamente proporcional ao do vigor lulista-petista.

Outro problema de Ciro reside, curiosa ou até paradoxalmente, em seu programa. A menos que ele se dê conta disso e busque uma solução, seu programa nacional-desenvolvimentista e popular corre o risco de ser considerado como muito datado no tempo, ultrapassado etc. Ciro deveria arejá-lo com incursões a questões contemporâneas diversas, como os temas do meio ambiente, as questões racial, de gênero e diversidade sexual, novas formas de governança política e relacionamento Estado-sociedade etc. Do contrário, pode ser pego no contrapé - por exemplo, uma ênfase sem maiores cautelas na tecla desenvolvimentista clássica poderá colocá-lo em rota de colisão com ambientalismos diversos, bem como com pautas como a dos indígenas, quilombolas, das comunidades ribeirinhas, das energias renováveis e limpas etc.

Poderia haver uma aliança Ciro x PT? Talvez não possa, mas talvez fosse desejável. O programa e o projeto de poder petista precisam de uma coluna dorsal forte - o compromisso estratégico com o desenvolvimento e a soberania, atrelados às demandas e ao protagonismo populares. Ciro forneceria os primeiros, enquanto o petismo ainda, ainda, tem confluindo para si os segundos. É duvidoso que Ciro meramente apoie a chapa petista como nas outras eleições vitoriosas do petismo (ou seja, sem fazer parte dela, ou sem um acordo firme em relação à sucessão etc). Por outro lado, a mentalidade hegemônica atrapalha o petismo - por reinarem ainda soberanos no campo das esquerdas, não raro parecem surdos à necessidade de uma auto-crítica efetiva, de fazerem um balanço entre seus erros e acertos etc. Sobretudo, não cogitam dividir a possibilidade de conquistarem o poder dividindo-o com outro que não seja um petista. Seu orgulho e sua teimosia podem derrotá-los.

4.1.18

Entrevista com um representante lúcido do mercado

A respeito da atual conjuntura, destaco a entrevista concedida por André Perfeito ao jornal El País (a propósito: para acompanhar jornalisticamente o Brasil atual, recomendo apenas dois periódicos, que são o El País Brasil e a BBC Brasil, além da revista Piauí, embora a proposta desta seja outra. A imprensa nacional em geral merece o descarte, pois que, além de nada agregar, quase sempre desinforma, manipula e falseia a realidade). A entrevista está aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/22/economia/1513963368_703686.html.

O que chama mesmo a atenção na entrevista é ver alguém "do mercado" com uma visão razoavelmente lúcida do que ocorre (inclusive ele mesmo sabe disso, quando se diferencia de colegas "cabeça de planilha"). Mais chamativo ainda, embora decorra do ponto anterior, é alguém do mercado ver em Lula o melhor nome - conciliador, mais barata forma de administrar o país etc. Ele diz isso para bons entendedores, e tem razão. Lula se move ali no centro do espectro político-ideológico, carrega sindicatos e acalma mercados. Alckmin, diz ele, também é calmo etc, mas não tem certamente a entrada de Lula no campo próprio das esquerdas.

Particularmente interessante é a resposta dele à pergunta, "por que o mercado teme a volta de Lula": teme porque os analistas brasileiros de mercado "não estão acostumados a avaliar risco". Ou seja, porque não sabem avaliar risco. Se soubessem, constatariam que Lula é o nome que representa o menor risco para o próprio mercado. Aqui, temos mesmo a velha reedição da tensão entre defensores extremistas do capital e defensores razoáveis do capital. Ambos defendem o capitalismo etc, mas o primeiro pretende ignorar que no capitalismo existem outras pessoas além dos capitalistas, enquanto o segundo procura considerar isso.

A incompetência dos mercadistas brasileiros em avaliar risco decorre (como Perfeito também sugere) do fato de que nunca precisaram, a rigor, avaliar risco algum. E nunca precisaram fazer isso porque (e aí vou mais longe do que Perfeito vai ou pode ir) o capitalismo brasileiro nunca foi (seriamente) um capitalismo de risco. O capitalismo nacional viu uma burguesia débil se amalgamar a uma classe dominante de cultura pré-moderna. O resultado é um processo de "modernização conservadora" muito mais conservadora do que poderia imaginar Barrington Moore Jr. (autor da expressão, usada para analisar os casos alemão e japonês), em que a (alta) burguesia nacional compõe um autêntico "Primeiro Estado" com as elites agro-exportadoras, tem o Estado nacional a seu serviço (em termos estruturais, nada fáceis de mudança via movimentos políticos conjunturais), e, com isso, uma virtual imunidade ao risco: sempre ganha, ainda que o resto do país perca. Tais elites descendentes de Maria Antonieta, emuladores de devotos do capitalismo, nunca precisaram avaliar risco algum, pois que sabem que seus erros e prejuízos sempre são socializados. O capitalismo de antigo regime brasileiro promove, em geral, apenas a distribuição de custos, nunca de rendas.

Deste modo, a luta civilizatória brasileira situa-se ainda num plano em que contendam, de um lado, forças políticas representantes da miséria civilizatória capitalista (a qual, no centro sistêmico, já faz água há algum tempo - aliás, água e ar poluídos), contra elites tão atuais quanto a época anterior ao advento da guilhotina.