A respeito da atual conjuntura, destaco a entrevista concedida por André Perfeito ao jornal El País (a propósito: para acompanhar jornalisticamente o Brasil atual, recomendo apenas dois periódicos, que são o El País Brasil e a BBC Brasil, além da revista Piauí, embora a proposta desta seja outra. A imprensa nacional em geral merece o descarte, pois que, além de nada agregar, quase sempre desinforma, manipula e falseia a realidade). A entrevista está aqui: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/22/economia/1513963368_703686.html.
O que chama mesmo a atenção na entrevista é ver alguém "do mercado" com uma visão razoavelmente lúcida do que ocorre (inclusive ele mesmo sabe disso, quando se diferencia de colegas "cabeça de planilha"). Mais chamativo ainda, embora decorra do ponto anterior, é alguém do mercado ver em Lula o melhor nome - conciliador, mais barata forma de administrar o país etc. Ele diz isso para bons entendedores, e tem razão. Lula se move ali no centro do espectro político-ideológico, carrega sindicatos e acalma mercados. Alckmin, diz ele, também é calmo etc, mas não tem certamente a entrada de Lula no campo próprio das esquerdas.
Particularmente interessante é a resposta dele à pergunta, "por que o mercado teme a volta de Lula": teme porque os analistas brasileiros de mercado "não estão acostumados a avaliar risco". Ou seja, porque não sabem avaliar risco. Se soubessem, constatariam que Lula é o nome que representa o menor risco para o próprio mercado. Aqui, temos mesmo a velha reedição da tensão entre defensores extremistas do capital e defensores razoáveis do capital. Ambos defendem o capitalismo etc, mas o primeiro pretende ignorar que no capitalismo existem outras pessoas além dos capitalistas, enquanto o segundo procura considerar isso.
A incompetência dos mercadistas brasileiros em avaliar risco decorre (como Perfeito também sugere) do fato de que nunca precisaram, a rigor, avaliar risco algum. E nunca precisaram fazer isso porque (e aí vou mais longe do que Perfeito vai ou pode ir) o capitalismo brasileiro nunca foi (seriamente) um capitalismo de risco. O capitalismo nacional viu uma burguesia débil se amalgamar a uma classe dominante de cultura pré-moderna. O resultado é um processo de "modernização conservadora" muito mais conservadora do que poderia imaginar Barrington Moore Jr. (autor da expressão, usada para analisar os casos alemão e japonês), em que a (alta) burguesia nacional compõe um autêntico "Primeiro Estado" com as elites agro-exportadoras, tem o Estado nacional a seu serviço (em termos estruturais, nada fáceis de mudança via movimentos políticos conjunturais), e, com isso, uma virtual imunidade ao risco: sempre ganha, ainda que o resto do país perca. Tais elites descendentes de Maria Antonieta, emuladores de devotos do capitalismo, nunca precisaram avaliar risco algum, pois que sabem que seus erros e prejuízos sempre são socializados. O capitalismo de antigo regime brasileiro promove, em geral, apenas a distribuição de custos, nunca de rendas.
Deste modo, a luta civilizatória brasileira situa-se ainda num plano em que contendam, de um lado, forças políticas representantes da miséria civilizatória capitalista (a qual, no centro sistêmico, já faz água há algum tempo - aliás, água e ar poluídos), contra elites tão atuais quanto a época anterior ao advento da guilhotina.
Nenhum comentário:
Postar um comentário