6.2.18

O maior erro do PT: o canto de sereia do camarote

Muito se fala, diante da condenação de Lula, sobre as condutas, os pesos e medidas do Judiciário brasileiro. Haverá muitos que considerarão justa a punição ao ex-presidente, bem como as outras que deverão vir. E haverá outros tantos para os quais, ou a condenação é injusta, ou Lula e outros petistas presos e/ou condenados estão sendo julgados com um rigor jamais visto diante de outros políticos poderosos.

Portanto, não falarei disso; a gritaria atual de lado a lado deve ser suficiente, senão para aclarar os fatos em questão, pelo menos para ilustrar os diversos pontos de vista. Meu ponto, que também não será tão original assim, é outro: usarei tais episódios para discutir o que penso ser talvez o pior, o mais lamentável e trágico erro cometido pelo PT em sua saga brasileira. Ou, para ser mais preciso, o erro da cúpula dirigente e suas hostes apoiadoras, da intelligentzia petista.

Então indo direto ao ponto: o erro mais abominável da realpolitik petista foi o de terem acreditado sinceramente que, por terem vencido a mais importante das eleições e terem por tanto tempo governado o país, que entraram para o clube fechado das elites nacionais. Que, ao emularem atos ou comportamentos típicos de membros das elites nacionais, poderiam ser julgados também de acordo com os padrões condescendentes - tolerantes, flexíveis, indulgentes, complacentes - com que as elites julgam a si mesmas.

Em outras palavras: historicamente, a cultura política nacional foi a da aplicação da lei aos inimigos (aos amigos, tudo!), o que implica um uso ou interpretação flexível da lei. Para os padrões do moderno Estado de direito, a cultura da aplicação variável da lei significa, de fato, que nenhuma lei vale de fato. Por este aspecto, pois, o Brasil ainda não alcançou a modernidade.

Histórica e culturalmente, já diziam alguns cientistas sociais, nós brasileiros nos acostumamos a apreciar, a valorizar, a conferir prestígio à desigualdade (os Jessés que me perdoem, mas seguirei um pouco mais com esta caravana). À secular e atroz desigualdade socioeconômica brasileira seguiu-se o seu reflexo justificador no campo das referências e valores: em geral, os brasileiros conferimos (aberta ou tacitamente) positividade a nos desigualar, e não a nos igualar. Somos, como alguém já disse, a sociedade do camarote: grande parte quer lugar num camarote. Uma diferença entre as classes nacionais (ou seriam estamentos?) é a que confere soberba e arrogância a um lado, e inveja ao outro.

Tal interpretação creio ser facilmente ilustrável ou demonstrável. Tomemos, por exemplo, a relação entre as questões da renda e da saúde pública. Nos anos de governos petistas, milhões de brasileiros dos estratos sociais mais baixos viram seus rendimentos subirem significativamente, houve quem falasse até na (bobagem da) "nova classe média" etc.

Mas, ao mesmo tempo que os estratos sociais inferiores ascendiam em termos de sua renda, o que acontecia com o sistema público de saúde? Continuou, salvo engano, em estado geral lastimável. O que fizeram os supostos recém-chegados à classe média? Entraram em massa no camarote dos planos de saúde privados (longe de mim, a propósito, julgá-los por tal escolha: agimos em um dado campo de possibilidades e oportunidades, buscando geralmente maximizar ganhos e prazeres etc).

A lógica social do camarote é a mesma lógica da reprodução da desigualdade: não se caminha nunca para uma diminuição ou abolição da desigualdade, e sim para sua recomposição. Porque, sempre que houver um plano de saúde (que, convenhamos, nem é lá grande coisa), haverá quem não pode ter um. Todo camarote é por definição espaço de privilegiados, fora do qual vivem os marginalizados.

A lógica do camarote explica também a desigualdade de acesso e tratamento pelo sistema judicial. O camarote jurídico é aquele em que seus ocupantes desfrutam de privilégios como a flexibilidade e indulgência com que seus atos são julgados. Onde não há igualdade não pode haver império da lei, porque este pressupõe necessariamente uma situação de igualdade formal entre indivíduos-cidadãos.  

Pois bem. E os petistas? Os petistas são originários dos espaços transgressores, dos pensamentos críticos ao status quo, dos estratos sociais mais baixos, das classes assalariadas, dos grupos sociais de identidades subalternizadas etc. Em suma, os petistas são originalmente os representantes políticos das ralés sociais de um Brasil cuja estrutura societal básica lembra ainda em muito as descrições machadianas da sociedade imperial do século XIX.

Aí, em sua justa saga pela busca do poder - o poder para diminuir desigualdades, para gerar justiça, enfim, para realizar algumas bandeiras típicas das esquerdas -, os petistas concluíram que, para serem palatáveis ao mundo dos bacharéis e semi-escravos oitocentistas, deviam formalmente se aburguesar. Começaram aparando as barbas e vestindo ternos de corte com caimento melhor. Moderaram seus discursos. Depois de muito pelejarem e de perderem, finalmente vencem a maior eleição do país. Fazem um governo razoável.

Os petistas, que antes ficavam segurando faixas debaixo do sol e se aglutinando em torno de carros de som nas ruas, passaram a operar dentro dos prédios e gabinetes climatizados, com suas mordomias, salamaleques e puxa-sacos. Conforme o tempo passava, se familiarizaram com o ambiente dos corredores do poder no executivo e no legislativo. Acreditaram que haviam entrado no camarote dos amigos e inimigos cordiais.

Não entraram e nunca entrarão. Na primeira oportunidade real que tiveram, os bacharéis  passaram Lula na guilhotina de sua justiça aristocrática e imperial. Agora, terminarão o serviço, esquartejando o corpo e exibindo os pedaços em praças públicas nos quatro cantos do país, como aviso a todos os iletrados e atrevidos que se esquecem de onde vieram: ralé, seu lugar não é no camarote e jamais será.

Se espero que o PT aprenda com seu maior erro? Que o caminho para a real superação da desigualdade brasileira é muito mais longo, pois requer a revisão de padrões valorativos e culturais, bem como a prática sistemática de novos valores? Que, antes de elegerem um chefe de Executivo para ficar cercado e refém dos bacharéis imperiais, devem demorar muito mais tempo, para elegerem amplos contingentes de legisladores? Que não devem jamais sucumbir ao canto de sereia da lógica do camarote, ainda que à guisa de combatê-la (porque isso não vai dar certo de jeito nenhum - sereias seduzem, levam pro fundo do mar e devoram suas ingênuas ou presunçosas presas)? Que a superação da desigualdade requer muito, mas muito mais do que meramente (a despeito de sua necessidade) ampliar a renda para consumo das pessoas mais pobres? Que requer esforços para a ampliação do universo intelectual, moral e valorativo das pessoas?

Espero. Sentado.

Um comentário:

  1. Comentarei nesse nobre espaço. Além do "efeito camarote", acho que o PT foi engolido pela tal "governabilidade". Inicialmente, era tática, mas depois virou destino. A governabilidade é a política mais instrumental do planeta. É a política pequena que dispensa ideologia e programa – é modo de governo! Governabilidade é, literalmente, moeda de troca. Dinheiro é o solvente universal da nossa representação política. Toda ideologia política desmancha-se no ar em tal ambiente. Pois a governabilidade é funcional à plutocracia. Como sistema, num congresso plutocrata, a ideologia só aparece como retórica quando há necessidade de utilizá-la para ganhar… dinheiro. Junte camarote e governabilidade ao neogetulismo (a crença numa burguesia nacional e soberana, nos ditos campeões nacionais -- Odebrecht, meu Deus!), aí lascou geral!

    ResponderExcluir