Há pouco menos de um ano, o Ibope fez uma pesquisa para tentar medir o grau de conservadorismo dos brasileiros (vide aqui: https://exame.abril.com.br/geral/pesquisa-ibope-comprova-que-brasileiros-estao-mais-conservadores/#). Descobriu-se que os brasileiros estariam mais conservadores do que seis anos atrás (ou, agora, quase sete, desde que o instituto fez a pesquisa pela penúltima vez), em questões como aborto, pena de morte, maioridade penal, casamento homossexual etc. E descobriu-se, também, que tais posições são mais comuns entre os menos escolarizados e evangélicos, sendo que as pessoas mais "liberais" nos costumes são as mais escolarizadas (fizeram faculdade) e sem religião.
Como existe uma correlação (embora não uma relação causal, muito menos mecânica ou automática) entre nível de escolaridade e nível de renda, pode-se concluir com razoável grau de acerto que o conservadorismo é forte na população mais pobre e periférica. Suponho que candidaturas ao legislativo com apelo conservador tenham respaldo em tais setores da população.
Nos meios, digamos, mais escolarizados e intelectualmente sofisticados, há progressistas que se espantam ou se admiram com tais fatos. Em especial, em meios acadêmicos com intelectuais de extração mais marxista, tais constatações são explicadas por teorias como a da ideologia - se o pobre (ou a classe trabalhadora) pensa como o rico (ou a classe burguesa, proprietária), isso deve ocorrer porque pensam conforme a ideologia dominante, que seria a ideologia da classe dominante, e tal ideologia seria uma imagem falsa da realidade, colocada ali para ludibriar a consciência do dominado. A ideologia não flutua no espaço, de modo que haveria algo, na vida social material, que acontecesse eventualmente e que demonstraria sua "validade" (por exemplo, o dito de que, no mundo moderno, alguém pobre pode ser rico se realmente se esforçar, como demonstram ricos que foram pobres, embora estes sejam uma exceção absoluta em meio à multidão de pobres que jamais conseguirão sair de sua condição social etc).
Contudo, nosso palpite é o de que, para certos valores e crenças, a teoria da ideologia não tem validade. Por exemplo, a máxima, "bandido bom é bandido morto". Se um habitante da periferia concorda com ela, rapidamente alguém poderia sugerir que tal máxima é ideológica, porque corresponde ao interesse das classes dominante/média em segregar e afastar o perigo gerado pela violência de marginalizados oriundos das classes populares, que ameaçam as propriedades e vidas dos cidadãos "de bem" etc. E, se um morador da periferia acredita nisso, então estaria sendo manipulado, porque afinal a violência das forças de segurança policiais se voltaria contra membros de sua própria classe social (pobres, marginalizados etc).
Ocorre, contudo, o seguinte. Um morador das periferias brasileiras poderia perfeitamente ter mais razões efetivas e pragmáticas para concordar com a violência repressiva da polícia do que pessoas de quaisquer outras regiões e classes sociais. Por quê? Porquê o habitante da periferia, que se desloca para o trabalho e normalmente a pé e de transporte coletivo, está muito mais vulnerável à violência e à criminalidade do que indivíduos das classes média ou alta. Enquanto alguém que anda de carro demora segundos ou minutos para se deslocar por certas ruas e partes da cidade, os indivíduos que usam calçadas e esperam por conduções em pontos de ônibus, metrô e trem demoram muito mais tempo para vencer as mesmas distâncias.
Em relação a crimes de rua, portanto, indivíduos das classes populares, que mais tempo passam na rua, ficam mais tempo expostos, e portanto têm maior probabilidade de serem alvos. Segue-se, daí, que a violência e a criminalidade têm um corte de classe, mas particularmente perverso para as classes populares - elas são alvos da criminalidade com mais frequência do que as classes médias e alta.
Assim, é razoável que as classes populares, os moradores das periferias, sejam sensíveis a argumentos conservadores como o da repressão violenta a criminosos: porque elas são alvos do crime, convivem cotidianamente com ações violentas, corpos sem vida estirados no chão por ocasião de guerras de gangues ou com a polícia, sabem muito bem o que é viver em uma zona de conflito. Estão cansadas de viver apavorados, carecendo, portanto, de ordem e estabilidade, de um mínimo de paz e tranquilidade para viverem. E, normalmente, é o conservadorismo quem se apresenta como mais diretamente preocupado com a questão da violência.
Portanto, da parte das classes populares, a concordância com alguns pontos de vista conservadores seria um posicionamento mais pragmático e racional do que propriamente ideológico ou tributário de alguma cultura autoritária e violenta. O preconceito comumente dirigido às classes populares, de que seriam menos propensas ou capazes de pensar racionalmente, razoavelmente ou pragmaticamente, não se confirma.
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