Tanto a conclusão do post anterior seria verdadeira que, a despeito de as periferias menos escolarizadas e evangélicas terem tais opiniões conservadoras a respeito de violência e criminalidade, a questão relativa ao casamento homossexual não foi respondida com o mesmo grau de conservadorismo. De acordo com o Ibope, os brasileiros que defendem pena de morte e redução da maioridade penal também aceitam cada vez mais o casamento entre pessoas do mesmo sexo (um empate técnico entre os favoráveis e os contrários). A propósito, uma pesquisa feita pela Fundação Perseu Abramo sobre periferias paulistanas também traz dados interessantes a respeito do modo como pensam sobre temas diversos, como Estado, religião e sexualidade (a pesquisa está aqui: https://fpabramo.org.br/wp-content/uploads/2017/03/Pesquisa-Periferia-FPA-040420172.pdf).
Assim, o conservadorismo é popular (ou tem penetração nas classes populares) porque ele pode fornecer respostas ou alternativas que mais satisfaçam a certas demandas oriundas de percepções ou visões pragmáticas da realidade. Mas atente-se para o fato de que não se está discutindo, aqui, se os pontos de vista ou propostas conservadoras são certas ou erradas. O ponto era refletir sobre o porquê de tais pontos de vista terem ressonância nas classes populares.
Se, agora, conseguimos ver que as classes populares podem ser tão racionais, razoáveis e pragmáticas quanto quaisquer outros indivíduos, abre-se o caminho para a questão de como - para quem se pretende progressista, humanista etc - fazer frente ao ideário conservador e apresentar alternativas de fato mais efetivas às bandeiras conservadoras.
Não é tarefa fácil. Qualquer habitante da periferia pode "testemunhar" a seguinte situação hipotética: um taxista é morto num assalto, e em seguida a polícia domina o criminoso e ele vai para a prisão. Testemunha também os defensores dos direitos humanos exigirem da polícia tratamento humano ao criminoso, cuja família também receberá um "bolsa-prisão" do governo, enquanto a família do taxista morto não receberá nada. Entre alguns políticos conservadores, tal visão é realidade (vide aqui um exemplo: http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/o-8220-bolsa-cadeia-8221-do-governo-federal-e-maior-do-que-o-minimo-que-dilma-quer-pagar/).
Me parece razoável a afirmação de que é frequente, entre os conservadores, a prática da simplificação das questões, dos problemas e também das soluções. Não que entre os esquerdistas não existam visões simplistas - elas existem. Mas, os conservadores parecem mais competentes em fazer suas visões simplistas mais marcantes ou "esclarecedores" à razão alheia.
O exemplo acima demonstraria isso. Ao político em questão, que quer acabar com a situação em que o criminoso é premiado (com o "bolsa-bandido") e a vítima é penalizada (nenhuma compensação recebe), deveriam ter lhe informado que o auxílio-reclusão é um benefício pago pelo governo aos dependentes do criminoso que tiver contribuído para o INSS (maiores detalhes aqui: http://www.previdencia.gov.br/servicos-ao-cidadao/todos-os-servicos/auxilio-reclusao/). E que também a família da vítima de um crime (como no caso hipotético acima) teria direito a benefício do INSS, caso a vítima fosse contribuinte da Previdência social pública.
Como, então, apresentar um contraponto tão didático, simples e aparentemente justo e acertado à "proposta" conservadora do "bandido bom é bandido morto"? Ou à proposta conservadora de se armar a população para fazer frente ao crime? De se reduzir a maioridade penal?
Ou, ao nos propormos tais contrapontos, já cairíamos na armadilha (conservadora) de tentar dar respostas simples a questões que, se vistas de um modo mais qualificado, são complexas?
Deveríamos assumir como um dado o modo pragmático de pensar, e tentar debater dentro de seus limites? Ou tentar insistir em uma formação intelectual capaz de conceber o que imediatamente ocorre dentro de um cenário mais amplo? Como tentar também convencer os indivíduos da necessidade de refletirem de modo mais amplo sobre as questões que os afligem?
Sim, porque, se já concluímos que as classes populares não são irracionais, e que pensam racional e pragmaticamente, também devemos considerar que o pensamento pragmático, racional, de curto prazo, não é também uma garantia per si de esclarecimento ou de uma reflexão mais rica. A propósito, superficialidade e ausência de maior capacidade reflexiva e intelectual são, nestes tempos de "pós-verdade", uma praga que ignora fronteiras de classe ou de condição social.
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