Saiu uma pesquisa do Ibope hoje, mostrando que, se as eleições presidenciais fossem hoje, Lula e Bolsonaro disputariam o segundo turno (a notícia pode ser vista aqui: http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/lula-e-bolsonaro-iriam-ao-segundo-turno-se-eleicoes-fossem-hoje-aponta-ibope/).
Nosso palpite é que, pelos dados da pesquisa, o eleitorado anda detestando o presente político brasileiro e o que se relaciona diretamente com ele. Por isso, se divide entre a preferência por um futuro incerto mas alegadamente "antipolítico" (Bolsonaro), e um passado sem surpresas ou grandiosos feitos, embora tenha sido de realizações e melhorias diversas (Lula).
Digo isso baseado nos lugares sociais prováveis de quem está preferindo Lula ou Bolsonaro. Este tem um eleitorado em princípio heterogêneo: entrada certa naqueles afinados com a chamada extrema direita, mas colhe apoio também entre os mais jovens membros de parcelas mais empobrecidas da classe média, desempregados ou subempregados, além de sudestinos e pessoas com ensino superior. O eleitorado de Lula é menos escolarizado e em geral de renda menor, mulheres e nordestinos.
Como não subestimo a inteligência das pessoas, e tampouco acredito que nível de escolaridade seja correspondente automático de maior ou menor inteligência, assim interpreto os perfis: o eleitorado de Lula é composto em sua maioria pelos setores da sociedade que mais foram beneficiados pelas políticas dos governos petistas nos anos 2000 e primeira metade dos 2010's. Tais eleitores são tão pragmáticos quanto quaisquer outros, e escolhem de acordo com o que consideram racionalmente melhor para eles. Assim como um eleitor evangélico escolhe um pastor, um eleitor ruralista não escolhe um candidato sem-terra, um eleitor rico escolhe quem considera que mais vai beneficiá-lo. E os eleitores de Lula estarão, normalmente, nos estratos sociais mais baixos e mais demandadores das ações e políticas governamentais.
Já o eleitorado de Bolsonaro, a despeito de sua suposta heterogeneidade, teria os seguintes traços socioculturais: está nas classes médias e altas, ou em nos que almejam tais posições sociais. As classes médias altas são em geral mais escolarizadas, um traço sociológico típico da classe média tradicional em muitos países (dado que o valor da meritocracia cala fundo neste setor). O que elas esperam do poder ou do governo? Que não as atrapalhe. Uma posição oposta à de grande parte do eleitorado lulista, composto por quem, consciente ou inconscientemente, é demandante da intervenção governamental.
Este traço do empreendedor e do profissional liberal também pertence a quem eleitoralmente prefere Doria ou um tucano qualquer. E aí entrariam em ação traços aparente de Bolsonaro que o diferenciariam dos tucanos: sua franqueza, um conservadorismo popularesco e sua posição anti-establishment ou "anti-políticos".
Neste sentido, Bolsonaro seria quem mais se pareceria com Trump: um conservador de mão pesada e completamente fora da "classe política" viciada e permanentemente encastelada no poder. Um não-político, um herói pronto a fazer o que os políticos não sabem, não podem ou não querem fazer.
Naturalmente que estamos longe das eleições, e só podemos brincar com hipóteses e conjecturas. Mas, de todo modo, o retrato do eleitorado atualmente é em sua maior parte este: uma parte que quer a volta do passado lulista, outra que quer um futuro anti-político e uma terceira que não sabe o que quer (brancos, nulos).
Com todas as outras variáveis aguardando encaminhamento (o judiciário tirará Lula da disputa eleitoral? A direita quer isso? Lula pode transferir-se para outro candidato? Bolsonaro resiste a movimentos de desconstrução? São Paulo dará seus votos para quem?Se o desemprego continuar - lentamente - caindo, quem se beneficiará? Etc.), só uma coisa é certa: o ano que vem tem tudo para ser mais estrambótico do que nossas mais bizarras expectativas.
Como não subestimo a inteligência das pessoas, e tampouco acredito que nível de escolaridade seja correspondente automático de maior ou menor inteligência, assim interpreto os perfis: o eleitorado de Lula é composto em sua maioria pelos setores da sociedade que mais foram beneficiados pelas políticas dos governos petistas nos anos 2000 e primeira metade dos 2010's. Tais eleitores são tão pragmáticos quanto quaisquer outros, e escolhem de acordo com o que consideram racionalmente melhor para eles. Assim como um eleitor evangélico escolhe um pastor, um eleitor ruralista não escolhe um candidato sem-terra, um eleitor rico escolhe quem considera que mais vai beneficiá-lo. E os eleitores de Lula estarão, normalmente, nos estratos sociais mais baixos e mais demandadores das ações e políticas governamentais.
Já o eleitorado de Bolsonaro, a despeito de sua suposta heterogeneidade, teria os seguintes traços socioculturais: está nas classes médias e altas, ou em nos que almejam tais posições sociais. As classes médias altas são em geral mais escolarizadas, um traço sociológico típico da classe média tradicional em muitos países (dado que o valor da meritocracia cala fundo neste setor). O que elas esperam do poder ou do governo? Que não as atrapalhe. Uma posição oposta à de grande parte do eleitorado lulista, composto por quem, consciente ou inconscientemente, é demandante da intervenção governamental.
Este traço do empreendedor e do profissional liberal também pertence a quem eleitoralmente prefere Doria ou um tucano qualquer. E aí entrariam em ação traços aparente de Bolsonaro que o diferenciariam dos tucanos: sua franqueza, um conservadorismo popularesco e sua posição anti-establishment ou "anti-políticos".
Neste sentido, Bolsonaro seria quem mais se pareceria com Trump: um conservador de mão pesada e completamente fora da "classe política" viciada e permanentemente encastelada no poder. Um não-político, um herói pronto a fazer o que os políticos não sabem, não podem ou não querem fazer.
Naturalmente que estamos longe das eleições, e só podemos brincar com hipóteses e conjecturas. Mas, de todo modo, o retrato do eleitorado atualmente é em sua maior parte este: uma parte que quer a volta do passado lulista, outra que quer um futuro anti-político e uma terceira que não sabe o que quer (brancos, nulos).
Com todas as outras variáveis aguardando encaminhamento (o judiciário tirará Lula da disputa eleitoral? A direita quer isso? Lula pode transferir-se para outro candidato? Bolsonaro resiste a movimentos de desconstrução? São Paulo dará seus votos para quem?Se o desemprego continuar - lentamente - caindo, quem se beneficiará? Etc.), só uma coisa é certa: o ano que vem tem tudo para ser mais estrambótico do que nossas mais bizarras expectativas.
Finalmente um blog!!!! Professor Sidartha, suas aulas e as discussões fora dela foram marcantes. Incrível para mim poder ler algo escrito pelo senhor de um tema que tanto me interessa. Parabéns pelas colocações, super adequadas, diga-se de passagem.
ResponderExcluirVitória Nobre.