3.11.17

Verdade, Amor & Família


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A minha primeira postagem neste blogue, que tenho a honra de dividir com o amigo Sidartha, diz respeito a uma matéria publicada ontem pelo jornal El País Brasil.

Trata-se da adoção de uma criança pequena por parte de um casal gay. Mais especificamente, da popularização do caso por meio de uma carta de um dos pais publicada no Facebook.

O que me chamou a atenção não foi a história da adoção, mas algumas passagens da carta. A começar por esta:

Este depoimento publicado é para que você aprenda que falar a verdade em voz alta nos torna livres, e ser quem somos é o maior ato de coragem.

A última frase parece fazer coro à máxima ou dístico que Nietzsche recupera de Píndaro: "torna-te quem tu és!"

Mas a primeira frase desautoriza essa impressão, pois, para o autor de Ecce Homo, a verdade não passa de "um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos" e a liberdade, da afirmação trágica do acaso, mais precisamente, da sensação, do sentimento de poder daí decorrente.

Entretanto, um pensador declaradamente nietzschiano como Foucault, pelo menos na sua última fase, defende enfaticamente a importância de se dizer a verdade, da veridicção (parrésia), antes de tudo para si mesmo.

A referência mais imediata, porém, é evidentemente a João 8:32: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará".

Mas, afinal, a que verdade se refere o pai? Que verdade tem ele em mente? A segunda passagem que me chamou a atenção nos ajuda a encontrar o caminho da resposta:
Jamais esqueça que Família, de sangue ou por escolha, é quem te ama sem cláusulas. 
O Amor. A verdade do amor ou o amor como verdade. O Amor-Verdade. A Verdade-Amor.

E esse Amor, e essa Verdade, é Incondicional, portanto, Absoluto.

E encontra lugar -- sobretudo e em primeiro lugar -- na Família.

E, assim, está instalado o conflito...

A família, diz-se, é uma instituição falida ou está em crise. Grave crise.

Penso que não.

A impressão de crise, de decadência, decorre do nosso apego a uma concepção tradicional de família. Aquela baseada na metafísica essencialista aristotélico-tomista, segundo a qual tudo tem uma essência, uma natureza imutável. As instituições naturais e/ou criadas por Deus não são exceção, muito menos a cellula mater da sociedade.

Deixando de lado a questão se o próprio Aristóteles defendia a fixidez da substância, o fato é que a categoria da substância, ela sim, entra em crise já no começo da Idade Moderna. Galileu Galilei, por exemplo, abandona a investigação da essência em favor da pesquisa da função dos fenômenos. Antes dele, o gênio renascentista de um Picco della Mirandola já havia proposto uma antropologia não substancialista.

Na modernidade, com efeito, a ideia de uma natureza humana é substituída pela ideia da condição humana, e, mais recentemente, pela ideia da situação humana.

Não é pois a família como tal que se encontra em crise, mas o fundamento metafísico da concepção tradicional de família que perdeu quase que totalmente a sua vigência.

A vida é ser, é ato, movimento, portanto, está sempre "em crise". A família é uma forma de vida. Como tal, ela não pode parar, fixar-se. O resultado disso seria a esclerose. A hipocrisia é um sintoma de esclerose.

Para concluir: não estou dizendo que não exista uma essência do humano e, por extensão, da família. Estou dizendo apenas que a humanidade do homem e das instituições não pode mais ser concebida como algo dado, predeterminado desde sempre e para todo o sempre.

Numa época da pós-verdade, fake news e do hedonismo, precisamos mais que nunca de testemunhos de Verdade e de verdadeiro Amor.

Como o prestado pelos pais adotivos do William.

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