13.11.17

A historiografia liberal de sempre e as objeções de sempre: crítica a Jorge Caldeira

O historiador e escritor Jorge Caldeira é celebrado em alguns meios liberais brasileiros. Agora, fazem fanfarra para o lançamento de seu último livro, "História da Riqueza no Brasil" (http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/10/1931056-amparado-em-numeros-caldeira-explica-cinco-seculos-de-brasil.shtml e http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/10/1930315-em-novo-livro-historiador-explica-economia-brasileira.shtml).

Em princípio, eu teria diversas objeções teóricas à argumentação fundamental da obra, algumas delas seguindo mais adiante. Começo com duas razões metodológicas para desconfiar deste trabalho:  1) empolgação demasiada com a econometria, e 2) empolgação demasiada com dados econométricos de centenas de anos atrás. 

Como não existia nada similar a um IBGE ou algo do tipo em 1600 ou 1700 (ou mesmo em 1800), por sua qualidade, os dados disponíveis permitirão, quando muito, uma visão remotamente aproximada dos fenômenos reais. Por sua vez, a econometria não pode "nos dizer" nada que já não sugerimos ou indicamos em termos hipotéticos ou teóricos ou por outras ferramentas metodológicas. A econometria pode ser um recurso de pesquisa interessante, desde que não esperemos ou queiramos que ela "nos diga" como funciona a realidade. Do contrário, cai-se no fetichismo da matemática e da estatística como fatores ''cientificizadores" da ciência social, que sem tais recursos não sairia de sua natureza "subjetiva", "ensaística" etc.

Em relação ao caráter muitas vezes redundante no uso de modelos econométricos, veja-se, por exemplo, a parte em que ele diz que, em 1800, o Brasil era tão dinâmico quanto os EUA - e a econometria teria "provado" isso. Na verdade, não era preciso que a econometria demonstrasse "objetivamente" tal fato, pois a historiografia econômica já sabia, há bastante tempo, que no início do séc. XIX não havia mesmo gigantescas diferenças entre as nações. Em 1800, a revolução industrial mal havia começado no Reino Unido (que também não eram muito diferentes, em poder, de outros reinos, como França, Prússia, Suécia, Áustria e Rússia - sendo o restante da Europa dividido em territórios tutelados por alguma destas potências, e em Estados de segunda classe. O resto do mundo, ou era desconhecido aos europeus, ou já sofria a influência destes), os EUA não passavam de um punhado de colônias quaker (além de latifúndios escravistas no sul) incrustadas na costa nordeste da América do norte, muito recentemente independentes etc. Aliás, não seria a primeira vez que eu veria um estudo econométrico "provar" uma teoria ou hipótese que, por outros meios, já muitos estariam carecas de saber - mas, agora, a prova seria "objetiva" etc...

Já as objeções teóricas e analíticas poderiam ser muitas. Citem-se algumas. A passagem do livro (na matéria da Folha) que começa a falar da China de Mao e vai terminar na semelhança entre Geisel e Lula, é francamente bisonha. O autor lembra que, em 1973, o Brasil era mais rico (PIB) que a China. Mas que, a partir daí, os chineses escolheram ir em direção ao comércio internacional (Globalização), enquanto o Brasil de Geisel "se fechou" ou se isolou.

Ora, é uma baita forçação de barra liberal a tese de que a China se modernizou e virou potência econômica depois de ter feito algo como ter "abandonado o socialismo (economicamente falando)" e "aderido ao (livre) comércio internacional", à globalização, tendo feito reformas "pró-mercado" etc. Isso é uma simplificação grosseira da realidade. A China é um exemplo de capitalismo dirigido pelo Estado, que controla um gigantesco Setor Produtivo Estatal (SPE, empresas estatais) e o sistema financeiro nacional. É um exemplo tardio (e aparentemente muito mais bem sucedido) do nacional-desenvolvimentismo do passado. E somente depois que os chineses garantiram (via proteções e apoios estatais de todos os tipos) que seu parque produtivo industrial tivesse nível de competitividade internacional, é que a China decidiu se integrar ao circuito econômico internacional, aderindo à OMC e "se integrando" plenamente à globalização. Mas foi (e é) uma inserção totalmente soberana, como, aliás, fizeram praticamente todas as potências econômicas do passado. Como toda grande potência econômica e política, os chineses topam fazer parte dos organismos multilaterais, ignorando quaisquer "recomendações" destes no sentido do livre-cambismo ou de qualquer outro delírio liberal, toda vez que estes versem sobre setores em que os chineses não sejam fortes. Como toda grande potência, os chineses defendem o livre comércio nos setores em que já são competitivos, e cuja competitividade foi construída seguindo-se sempre o contrário do que apregoam as eternas máximas liberais.

A China, aliás, é exemplo de uma verdade que Fernando Henrique Cardoso é até hoje incapaz de compreender: que  a inserção de um Estado à "globalização" nunca teve nada a ver com submissão ou renúncia de soberania. O fenômeno contemporâneo da integração econômica e financeira mundial - vulgarmente chamada de "globalização" -, a despeito de existir, jamais substituiu o velho jogo geopolítico internacional, pelo qual os diversos Estados e respectivas economias e capitais embrenham-se em disputas por posições, e daí originando dinâmicas sistêmicas hierarquizadas. O caminho de FHC foi o da inserção subordinada, que tornou o Brasil dependente da economia internacional. O caminho chinês foi o da inserção soberana, que tornou (juntamente com o seu colossal tamanho) a economia internacional dependente da China.

Voltando à economia da miséria liberal. Caldeira bate em Geisel porque Geisel foi o momento em que o governo  ditatorial civil-militar tentava uma guinada mais propriamente "nacionalista" em seu desenvolvimentismo. Isso para um liberal é imperdoável, e talvez por isso Caldeira jogue no colo de Geisel a responsabilidade pela recessão brasileira de 1979-82. E nisso, incorre em outra tolice.

Na verdade, nada que o Brasil pudesse fazer naquele momento o livraria da recessão, porque ela foi causada por um fator sobre o qual, naquela conjuntura, os brasileiros não tinham qualquer controle: a mudança radical da política monetária norte-americana. O Fed fez um choque na taxa básica de juros americana, o que provocou uma violenta sucção de capitais de todo o mundo para os títulos norte-americanos, ocasionando a quebradeira não só do Brasil, mas de vários outros países, então dependentes de poupança externa (a famosa crise da dívida nos anos 80 começou aí).

A economia brasileira era fechada, mas não por decisão somente de Geisel, e sim dos desenvolvimentistas de bem antes dele (aliás, de séculos antes: a Inglaterra, primeira potência industrial do mundo, começou seu caminho nesta direção pelo menos duzentos anos antes do séc XIX, priorizando sua produção nacional). Era fechada às importações, mas exportava bastante (quem estava vivo nos anos 80 deve se lembrar da tecnologia bélica brasileira sendo vendida para países diversos no Oriente médio, incluindo o Iraque de Saddam. Aliás, o Brasil exportava bastante).

Os paralelos entre Geisel e Lula são ainda mais esdrúxulos, e só fazem sentido para acredita (erroneamente) que tanto Geisel quando Lula "optaram pelo que está aqui dentro" (!?), o que não tem pé nem cabeça, já que Lula nada vez para "fechar'' o país, que Geisel era industrialista e Lula, não (pelo menos a circunstância do real sobrevalorizado e da abertura comercial não permitiam isso) etc etc. E o autor ainda não entende como ideologias opostas teriam levado Lula e Geisel a rumos semelhantes. De fato, é muito difícil entender o que simplesmente não existiu.

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