11.11.17

A Lógica de uma Hashtag

O caso do jornalista global William Waack provocou fortes reações Brasil adentro e afora.

A famigerada expressão empregada por ele num vídeo vazado, "É coisa de preto", virou hashtag.

Precede listas de pessoas pretas (permita-me o raro leitor preferir preto a negro) e pardas bem-sucedidas em vários setores da sociedade e da cultura, sobretudo nas artes.

Mas wait a moment!

Será que esse "argumento" não é autocontraditório?

Sim porque, ao pretender demonstrar que pretos são tão bons (ou melhores?) que brancos, não acaba fazendo o jogo do oponente, o racista branco? 

Primeiro porque não passa de um "argumento" de autoridade, e a autoridade pode persuadir muitos mas não convence ninguém. 

Segundo porque entrar nessa discussão é fazer o jogo do adversário, e, portanto, perder o jogo.

Explico-me: não se pode combater o racismo recorrendo-se a supostos atributos de uma suposta raça. Mesmo que a intenção não seja vincular o sucesso, o valor dessas pessoas à sua cor, é isso que vai acabar acontecendo.

Mas pessoas são bem-sucedidas por razões (talento natural, esforço, persistência, sorte etc.) que nada têm que ver com a sua cor, seja qual for.

O racismo só será vencido quando a própria ideia de raça for desconstruída e destruída.

Gandhi mostrou que a melhor estratégia para vencer um jogo de cartas marcadas e, portanto, injusto, é não entrar nele, não fazer o jogo do adversário. É não ser reativo, mas sim proativo, e isso num sentido completamente diferente.

A expressão "é coisa de preto" deve ser desconstruída, destruída, porque é intrinsecamente racista.

Usá-la como contra-argumento --como #-- é incorrer em contradição pragmática ou performativa, pois se limita a apenas mudar o sinal do racismo, e, portanto, a reforçá-lo.

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