21.11.17

Austríacos vs Realidade: a tese do mercado "não concentrador" de riqueza

Ultimamente andava debatendo com alguns alunos, praticantes da vertente austríaca do liberalismo, e por conta disso andei fazendo algumas leituras - o que meu tempo permitiu - sobre a temática.

A propósito, adianto minha fórmula para ser imune à idiotice das multidões em tochas brandindo teses como a da "Escola Sem Partido": discuto, dentro do que a ementa permitir, quaisquer perspectivas analíticas. Divergências teórico-ideológicas são mais do que bem-vindas: é um esporte meu gastar tempo nelas. Não uso autoridade alguma em sala por ocasião de algum debate do tipo - pois a autoridade mata o debate, por definição -, e muito menos cultivarei inimizades por conta disso - que suma perda de tempo e de energia arrumar inimigos por questão de divergência de ideias!

Noutro texto poderei voltar a pontos específicos da Escola Austríaca (que, a despeito de ter alguma originalidade em relação à ortodoxia econômica convencional, e de pretender fundar a ação econômica em uma teoria filosoficamente embasada da ação humana, padece de erros e equívocos fundamentais, dada sua afinidade basilar com o liberalismo), bem como levantar alguns diálogos feitos nos debates com meus alunos austríacos. Por ora, fico num que me foi jogado por Edson (ele não é austríaco, mas, como eu, tem no debate uma paixão), texto de quase dois anos, criticando a obra O Capital no Séc. XXI de Piketty. O texto é de 2015, mas poderia ser de 2005 ou de 1915, que daria no mesmo, uma vez que, para liberais em geral (e austríacos em particular), a história pouco importa e pouco explica - pelo contrário, deve sempre ser explicada por um mesmo conjunto de teses a-históricas e, portanto, universais.

O texto é este aqui: http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2246, escrito por Louis Rouanet. Em suma, para o autor, Piketty afirma existir um processo de concentração de riquezas no qual, após uma dinâmica infinita de acumulação de riqueza, toda a riqueza poderia ficar nas mãos de um indivíduo ou cartel. E Rouanet se apressa em "refutar" tal argumento, dizendo que: 1) pela escola do cálculo econômico, uma concentração infinita nas mãos de um único indivíduo ou grupo é impossível; 2) que o Estado é quem distorce o mercado favorecendo uma acumulação extremada ou artificial; 3) que os ricos acumulam riqueza por serem mais competentes (tendencialmente) em alocar capital; 4) que, como quase todos os bilionários de 1980 deixaram de sê-lo em 2010 (ou 2016, 2017), então não haveria concentração de riqueza. Convido o leitor a ir ao texto de Rouanet tirar suas próprias conclusões.

Como eu li tal texto e tenho o livro de Piketty, vi dois problemas fundamentais no argumento de Rouanet (na verdade, há muitos problemas, absurdos e tolices ali, mas estou tentando escrever textos mais curtos).

1) Os titulares individuais de plantão da gigantesca riqueza concentrada são irrelevantes para Piketty. Consultando bases de dados bastante diversificadas (Rouanet se fixa na Forbes, mas Piketty mesmo diz que toma a Forbes - e outras revistas do tipo - como mera sinalização aproximada do fenômeno, pois que existe forte viés na revista, seus critérios de classificação são confusos etc), Piketty constata que a riqueza do topo da pirâmide está crescendo de duas a três vezes mais rapidamente do que a riqueza média (nós dois incluídos, Edson, e não apenas os que ocupam o fundo da base da pirâmide). Se as fortunas mudam de mãos - o que, para Rouanet, demonstraria que os mercados "não concentram riqueza" (pelamordedeus...) -, isso não muda o fato de que elas continuam em um número muito pequeno de mãos, número que tende a ser ainda menor. 

Num outro texto do site (http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1836. Texto de Ramón Rallo), ele procura "refutar" Piketty, ao demonstrar que os homens mais ricos do mundo em 1987 já tinham quase todos perdido suas fortunas, sendo que pouquíssimos seriam reconhecidos hoje. Ele mostra que várias fortunas encolheram enormemente, como a do homem mais rico do mundo em 1987, um japonês que tinha 20 bilhões de dólares em patrimônio. Em 2006, ele já tinha (descontada a inflação) 678 milhões de dólares, tendo encolhido 96%.

Isso provaria que o argumento de Piketty está errado? Dificilmente. A menos que os austríacos acreditem que, quando uma fortuna desaparece, ela se comporta como uma estrela supernova, que explode e pulveriza a matéria em infinitas direções, devemos supor a hipótese mais razoável: a despeito de haver queima de capital, os capitais transferem-se em direção a outros capitais. Os dados de Piketty aparentemente confirmam esta hipótese: os homens mais ricos do mundo podem mudar (até por serem ainda mortais, embora estejam investindo em buscar a vida eterna), mas as riquezas, em âmbito macroeconômico, seguem se aglutinando. Os austríacos reclamam que Piketty não enfoca os empreendedores. Bem, ele foca, assim como também nas pessoas mais ricas do mundo que não trabalharam um dia sequer.

2) Há um enorme espantalho no argumento de Rouanet. Não achei, em nenhum lugar da obra de Piketty, alguma parte em que ele falasse sobre "único e poderoso cartel", "único e poderoso proprietário", "ilimitada concentração de riqueza" etc. Rouanet escreve: "O fato é que Piketty realmente acredita que uma única pessoa ou entidade se tornando proprietária de "tudo" é algo possível de ocorrer em um capitalismo de livre mercado."

Não, Piketty não acredita nisso, ou não escreveu isso em lugar algum do livro. É um espantalho (um tipo de argumento falacioso: atribui-se um argumento ou ideia ao interlocutor que não é de fato dele, mas que pode ser atacado - refuta-se, assim, uma ideia falsamente atribuída ao interlocutor).

Em suma, Piketty tem razão (fundamentado em uma ampla diversidade de dados), e a lógica de mercado tem concentrado, sim, a riqueza. Rouanet acredita que a lógica de mercado, desde que "livre e desimpedido", tende a gerar mobilidade inter-geracional e, até, maior igualdade, "se considerarmos a evolução das disparidades de renda entre indivíduos ao longo de um grande período de tempo" (Rouanet). A história econômica costuma contradizer fortemente tais proposições (ou mesmo reputá-las como ridículas), mas, como eu disse acima, felizmente, para a teoria austríaca e liberal em geral, a história não conta.

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